

Cristo, a centelha divina em nós

"O caminho que leva a Deus é o mesmo; porém lhe deram muitos nomes"
Neste artigo, responderemos às seguintes perguntas:
1. Amor é um sentimento. Se Deus não ostenta as emoções nem as formas humanas, por que afirmamos que "Deus é Amor?"
2. O que significa o trecho bíblico em Ef 1:3 "Deus já nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais em Cristo"?
3. Cristo é um título criado exclusivamente para Jesus?
Para elucidar qualquer um destes questionamentos, é necessário estar bem claro na mente e no coração dos leitores, que há uma diferença significativa entre os nomes “Jesus” e “Cristo.” Uma grande confusão é feita em torno desses dois nomes, induzindo o leitor a interpretar incorretamente vários textos das Escrituras, sobretudo do N. Testamento. Do mesmo modo que os discípulos de Jesus, dado a sua tradição judaica, tiveram alguma resistência para abandonar a Lei, alguns devotos atrelavam a divindade de Cristo à humanidade de Jesus. Textos como o de Rm 8:37, entre vários outros, são um exemplo da mesclagem feita pelos escritores, que ao mencionar o termo “Jesus Cristo ou Cristo Jesus” pretendiam transmitir a idéia de que se tratava de um título ou designação restrita apenas ao Mestre Jesus, tornando assim equivocada a compreensão da obra de Jesus e da sua revelação do Cristo.
Não podemos ignorar os fatos históricos e as evidências arqueológicas com os quais já tivemos contato ao longo do tempo. Também precisamos ponderar que a Igreja Católica nos anos 300 dC sofreu muita influência do Império Romano especialmente na pessoa do Imperador Constantino, o qual supostamente teria se convertido a fé cristã. Constantino, que fora um perseguidor dos cristãos, sustentava que sua conversão ocorreu após uma experiência na Batalha de da Ponte Milvia, 312 d.C. onde teria visto um símbolo cristão no céu com a frase: “In hoc signo vinces” (com este sinal vencerás) e ao triunfar, atribuiu a sua vitória à proteção do Deus cristão. Todavia, a fé de Constantino era questionável e sua conduta contradizente a de um cristão; além de manter os costumes pagãos, mandou executar sua esposa Fausta e seu filho Crispo em 326 d.C.
Procurando atender a seus interesses políticos e preservar a estabilidade do Império Romano, Constantino ao perceber o notável crescimento da seita cristã, legalizou o cristianismo promovendo sua expansão, Fez doações, patrocínios, construiu igrejas além de conceder vários privilégios ao segmento que viria a se tornar a principal religião do Império Romano. Outrossim, as atitudes das hierarquias da igreja também eram pautadas pela sua aspiração ao Poder. A sujeição da sociedade aos preceitos sob medida pras conveniências das lideranças, propiciou a inserção de muitos dos sofismas que hoje encontramos agregados às mensagens genuínas de Jesus e de seus apóstolos.
No ano de 325 d.C, na cidade de Nicéia, Constantino convocou bispos católicos de diferentes regiões do império para promover um consenso doutrinário acerca da fé cristã a fim de acabar com a disputa teológica e estabelecer uma unidade na igreja. Nesta reunião que ficou conhecida como Concílio de Nicéia, a principal questão discutida foi a divindade de Jesus e sua natureza similar à de Deus Pai.
De um lado, se posicionava os representantes mais influentes do corpo clérigo que defendiam a natureza divina de Jesus, baseados na interpretação do evangelho de João cap. 1 que diz: “No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus.” Estes almejavam consolidar a autoridade da igreja junto ao povo, uma vez que oficializar a natureza de Jesus como o Deus Todo Poderoso, conferiria mais robusteza à instituição, além de promover o empoderamento de seus representantes, elevando-os ao status de mediadores entre Deus e os homens. Do outro lado, havia uma minoria que não concordava com a divindade plena de Jesus vendo-o como figura subordinada a Deus. Consideravam-no um ser de caráter espiritual elevado, um mensageiro de Deus, todavia, não o reputavam como a encarnação do próprio Deus em forma humana.
É preciso esclarecer que, nos primeiros séculos, antes do cânone bíblico ser estabelecido, haviam dezenas de evangelhos circulando além dos quatro canonizados (Mateus, Marcos, Lucas e João), e todos narravam a vida, obra e ensinamentos de Jesus de uma perspectiva particular. Um dos critérios usados pelos clérigos para decidir se o texto era canônico, ou seja, autêntico e inspirado por Deus, levava em conta as interpretações que mais se conciliavam com os preceitos pré-estabelecidos pela Igreja conservadora. De modo que manuscritos que não pactuassem com os interesses e visão religiosa da época, eram considerados apócrifos, fraudulentos e, portanto, heréticos. Assim, foram todos eles banidos e tornados inacessíveis à comunidade. Para preservar esses textos e garantir que seriam conhecidos por gerações futuras, os seus escritores os protegeram enterrando, escondendo em vasos e em cavernas onde pudesse subsistir ao tempo. Uma das mais significativas descobertas ocorreu Em 1945, onde foram encontrados por dois irmãos egípcios, treze papiros escondidos em jarros de argila, datados de mais de quinze séculos, intitulados “biblioteca de Nag Hammadi”.
Embora esse achado seja considerado um marco fabuloso para se conhecer mais sobre a história, crenças, conflitos e a linha de pensamentos dos indivíduos nos primeiros séculos do cristianismo, ainda são considerados pelos ortodoxos como uma fraude bem elaborada que, atribuindo a sua autoria a cristãos famosos, pretendia com isso angariar crédito junto aos fiéis.
Entendo que esse parecer é, no mínimo, dogmático, visto que alguns textos contrariam claramente os preceitos padronizados como verdade absoluta. E além disso, não há como asseverar que os textos considerados canônicos são de fato autênticos ou mais verdadeiros do que Nag Hammadi, uma vez que foram resultado de debates e escolhidos por votação com base em opiniões humanas.
As interpretações consensuais se transformaram em regras de conduta; qualquer ponderação que viesse a contrariar a doutrina oficializada pelo clero era considerada heresia e os hereges sofriam punições tanto da igreja como também do governo. A Igreja assumiu posições extremas que culminaram com a morte de muitas pessoas simplesmente pelo fato de não concordar com o rumo tomado pela fé Cristã e com os dogmas impostos pela grande autoridade político-religiosa da época.
Após dogmatizar a divindade de Jesus, dogmatizaram ainda mais a de sua mãe, com afirmações como “A Virgem, Maria é a Mãe de Deus”. Mais adiante, incluíram vários outros conceitos na doutrina. Criaram o inferno e o diabo espalhando fobia e pavor, a fim de que não houvesse dissidentes. Infelizmente, em vez de Evangelho, os cristãos receberam e propagaram pelo mundo o medo e a intolerância. O engano oficializado pela Igreja Católica, criou raízes tão robustas, que uma Reforma Protestante não bastou para persuadir a mente humana a questionar os dogmas, e o coração a se aproximar de Cristo.
Certamente a resposta àquelas questões propostas no início, assustará a muitos, o que é perfeitamente compreensível, uma vez que a cultura religiosa em que estamos inseridos vem sendo sustentada pelas instituições há quase dois milênios. Entretanto, é preciso ter coragem para investigar e conhecer a verdade, por mais perturbadora que aparente ser. É essencial que o buscador da Luz esteja disposto a desconstruir todo o conteúdo das camadas mentais que foram expostas à tradição e à cultura para serem diligentemente moldadas.
Usando um mínimo de razão, bastaria uma pequena reflexão, para questionar o fato de o Deus Supremo indescritível, sem forma e sem atributos humanos, Todo Poderoso, Criador de todos os multiversos e suas numerosas galáxias; Aquele que planejou o infinito e nele distribuiu elementos astronômicos extraordinários, cuja grandeza reduz a terra à proporção de um cisco cósmico; agora descer à terra para interferir no cotidiano dos seres imperfeitos. Como conceber que esse Ser Magistral de grandeza singular se revelaria exclusivamente a alguns indivíduos, num ponto remoto do planeta; que Seu amor incondicional estaria restrito a um grupo de viventes pré-definido no espaço/tempo; que privaria do seu afeto o restante do mundo e da Sua Presença os que não considerava seu povo? Como acreditar que mesmo assim, foi desprezado e não conseguiu fazer com que a sua mensagem fosse compreendida pela maioria dos seus seguidores aos quais se manifestou?
Jesus nasceu como homem, viveu como homem e morreu como homem. O homem Jesus estava sujeito a viver sob as mesmas condições a que nós somos submetidos cotidianamente. Não obstante, Jesus foi um um extraordinário Mestre propagador da Luz, um Ícone da divindade de extrema grandeza e poder junto à humanidade, assim como outros grandes avatares autorizados nas mais diversas mitologias terrenas. A Unção que recebeu do alto o tornou a maior autoridade na terra para revelar ao mundo a Natureza do Deus Verdadeiro e a Verdade que liberta. Jesus tinha conhecimento de que a Centelha de Deus, o Criador Supremo, era uma Entidade chamada Cristo. Esse Cristo é o Instrumento decodificador, digamos assim, de todos os atributos de Deus. Jesus era convicto de que tinha Cristo em seu interior e ensinou que também a nós foi concedida essa Centelha de Deus, a qual habita e opera semelhantemente em cada um de nós. É através do Cristo interior que nos comunicamos com Deus. Somente por meio de Cristo é que a Fonte Criadora se manifesta a nós. Por isso é dito que Cristo é o único caminho que leva a Deus. Então é por meio do Cristo que Deus nos abençoa com toda a sorte de bençãos celestiais (Ef 1:3). É em Cristo que Deus se transforma em Amor. Por meio dessa Centelha nos tornamos fortes, vencedores, perfeitos, Libertos da roda do mundo.
Por meio da Sua divindade chamada Cristo em nós, Deus tem uma experiência como um Ser encarnado na terra. 2Co 5:19 diz que "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os pecados..." Essa Porção de Deus que está em nós é o Reino de Deus ou Reino dos Céus em nós.
Vários nomes são usados para denominar este poder interior como por exemplo: Eu Superior, Eu Maior; Eu Sou; Espírito Santo; Centelha divina; Nossa Consciência mais elevada; e até mesmo Jesus Cristo. Porém, qualquer que seja o nome usado, o significado é o mesmo, ou seja, é o que nos torna um com Deus. Que posição poderosa! Que posição invejável até aos anjos essa nossa de possuir os atributos de Deus em nós por meio desta Centelha!
Se priorizarmos nosso Eu Divino, Se tivermos comunhão com Cristo por meio de meditação, busca, oração e pesquisa; tudo aquilo que buscamos, obteremos da Fonte que já flui em nós. Aquilo que perseguimos com fervor se nos apresentará por meio de insights ou clareza repentina de algo que até então nos era incompreensível. Ao começarmos a desenvolver a nossa sensibilidade, perceberemos acontecimentos ou situações não usuais; sincronicidades, oportunidades, além de uma grande paz. Teremos convicção, sem precisar que alguém nos convença, daquilo que provém de Deus. A nós virá o discernimento do que é falso e do que é verdadeiro. Quando compreendemos claramente que essa Presença Poderosa habita em nós, nos tornamos como aquele homem da Parábola de Mt 13 que, encontrou num campo, um tesouro de grande valor e, transbordante de alegria, foi e vendeu tudo quanto tinha para comprar aquele campo.
Cristo está em todos, ainda que não saibam disso, ainda que o chamem por outro nome. Por isso temos a certeza de que jamais estaremos sozinhos, pois o Deus vivo que está em nosso espírito de modo algum nos rejeitaria, de modo algum nos odiaria ou lançaria algum de nós num inferno de fogo e tormento eternos, como pensam alguns; e isso porque, estando amalgamado a nós, não causaria, O Cristo de Deus, dano eterno a Si próprio.
Somos Luz!